Parte 1 do conto: Radiohead na Portela (Psicotrópicos nos trópicos)

De Rafa Lima

A notícia de que durante alguns dias do verão carioca as pessoas reunidas na praia de Ipanema aplaudem o sol que em curta temporada se põe por trás do mar, criando um cenário natural que entope retinas de encanto, surgiu como o elemento que faltava para convencer o jovem londrino a vir visitar o amigo brasileiro durante o mês de fevereiro. Ao contrário da “perspectiva paranóica e clichê, fundamentada em estatísticas mas muito exagerada em sentimento, que demoniza os níveis de violência do Rio de Janeiro”, com que foi bombardeado antes de embarcar para o Brasil, “como se os crimes não acontecessem em outras cidades também”, mas o que sabe ele de fato?, Stanley (hipertexto, nascido em Londres, escapou por um bom tempo de ser mais um rebento do pragmatismo, rebelou-se contra os formatos pré-estabelecidos de como se viver durante anos mas os vícios da vida adulta foram mais fortes e com isso a necessidade de ganhar dinheiro massacrou os seus idealismos, atualmente, 27 anos, divorciado, sem filhos, mestrado em economia, mas gostaria de ter uma banda de Jazz, de férias do emprego, encontra-se em uma entressafra existencial, busca em palavras próprias “something as extraordinary as beer but non-alcoholic”, interessa-se por gestos curiosos tal como aprender idiomas de países mais pobres do que o seu e só se casaria novamente com uma mulher tão leonina e apaixonada quanto a Julieta do Shakespeare, o nome da personagem se refere à época do nascimento dela, o mês de julho) se viu apaixonado desde o primeiro momento pela atmosfera da cidade maravilhosa (hipertexto sob a ótica do anglo-carioca romântico, “quase guerra civil? Tem certeza? Experimenta oferecer oportunidades à população para ver o resultado”).
Tanto que: “Os brasileiros parecem dois níveis de felicidade acima de qualquer outro povo que já conheci”, conclui o visitante dentro do mar depois de uma semana no apartamento de João (hipertexto, conhecido como John, carioca atípico mesmo, riquinho arrogante, estranho, né?, wannabe a british man desde a infância porque, sabe como é, ele nasceu em berço de ouro, é um privilegiado em meio a plebeus que se digladiam por dinheiro, educação e cultura, quando não mero status social, enquanto ele estudou nos melhores colégios, inclusive em escola de Cambridge, Inglaterra, e portanto não faz parte da gentalha popular, “nem me pergunte o que é samba, Stanley, porque me interesso menos do que você”, 25 anos, solteiro, criado-por-avó, intoxicado de cultura, cinéfilo, amante de Kubrick, Win Wenders, Akira Kurosawa e Alan Parker, viajado, Europa ocidental quase toda, Nova Iorque, Los Angeles, Toronto, Cidade do México, Moscou, Tóquio, Seul, Pequim, Cidade do Cabo, Sidney, Buenos Aires, Machu Pichu, requintado, dá ótimos presentes aos amigos, melancólico, no fundo, no fundo, um sujeito bom mas que se leva a sério demais e não tem pena de sua própria gente, “quem disse que essa é a minha gente?”) localizado a dois quarteirões da praia. “De onde vem a alegria que acertadamente fazem tanta questão de mostrar?”, pergunta-se ao sair do mar, desviando-se das bolas saltitantes das rodas de altinha e jogos de frescobol, o inglês de pele muito branca, agora rosada em exagero pela sucessiva exposição ao raios solares.
De volta à areia, percebe que se perdeu de sua companhia. Não faz idéia de onde se encontram a barraca alugada e a canga da menina que se apaixonou por ele pelo simples fato de ser inglês. Observa a multidão bronzeada, quanta saúde em meio a tanta liberação de pensamentos. O desejo está no olhar. “Abaixo a repressão da libido! Se não tivesse a estátua do Cristo ali em cima do morro, isso aqui viraria uma orgia. Oh, Cristo! Por que não?”. Stanley ri. Caminha por espaços sinuosos, chuta areia por descuido sobre uma morena linda “que biquini, que rabo!” e pede desculpas em português carregado, evita o choque com uma barraca colorida, mas esbarra em um sujeito mal encarado, tendo que recorrer ao novo idioma mais uma vez, observa as pessoas e nem desconfia de que está numa faixa da areia dominada por pequenos traficantes querendo bancar os playboys, move-se mais um pouco, ouve alguém falando o novo idioma e pára para tentar entender o que dizem: “Papo sério, mermão! Papo sério! Vasco e Flamengo é que é foda! O Fla-Flu já não tem tanto charme. O Fluminense só ganhou tanta moral lá no passado por causa do Nelson Rodrigues”. “Você está pirado, Xereca! Que papo é esse de passado? O século é vinte e um, porra!”. “O Nelson Rodrigues foi o maior talento do Fluminense do passado”. “Tá viajando, Xereca, tá viajando! O cara nem era jogador! Era escritor de sacanagem”. “Que ignorância, Frangolino! O cara era foda! A sua irmã se amarra nele”. “Olha, o mate! Olha o galão! Olha o mateeee!”. “Não mete minha irmã na história!”. “Mas o que eu estava dizendo antes é que hoje em dia é diferente. O Maraca com Vasco e Flamengo é foda, mermão! Vasco e Flamengo é foda!”, mas como Stanley não entende bem a conversa dá mais uns passos para se afastar de um vendedor vestido de árabe que carrega um isopor e que passa berrando ao seu lado e se surpreende, “como tem mulher aqui! Por que será que tantas pintam o cabelo de loiro?”, é a região onde se encontram os grandes playboys querendo bancar os traficantes. O cheiro é inconfundível. Stanley se diverte muito. Quanta gente! Que fauna! Que flora! “Aquela bunda tem vida própria. Por sorte, não paga imposto”. Ho, ho, ho, hi, hi, hi, ha, ha, ha! Stanley está perdido na praia. “Por que não sinto tanta liberdade de espírito em casa?”. Ah, liberdade! Liberdade, essa putinha!
Stanley está doidão!

Continua...

2 comentários:

Pedro Laureano disse...

haha irado

Mas quem é esse tal de Nelson Rodrigues?
Alias, uma sugtestão: botar uma musica para acompanhar a leitura de cada texto...Pra esse, obviamente...idioteque! hehe

ahh...queremos blogs-crônicas!

Muito axé e luz

Anônimo disse...

Oi, Rafa,
Que farta degustação!
Parabéns.
Um abraço,
C. Moreno