Parte 3 do conto Meu bebê

De Rafa Lima

No capítulo anterior

... Alice com gosto de Alice, viva, serelepe, colore um arco-íris interior, sorri para o céu, sorri para a chuva, sorri para o mendigo, quanta euforia!, quanta euforia!, quanta euforia!, gozar e sorrir, nada realmente importa!, “tão bom viver desse jeito”, mas, tempo, tubarão, mordida que não se vê até que dilacera, três meses, nada de gravidez, percebe-se apaixonada para valer, dependente, “é a hora de partir, não quero!, não quero! Mas tem de ser assim”, rapidim, esforça-se, tratamento de choque, “arranca, arranca, tira isso de mim!”, chora em segredo e desaparece da vida dele sem deixar vestígio, decepa-o de dentro de si antes que tudo esteja perdido, bruxa?

Continua...

Parte 3

Alice Holanda volta a malhar, a correr, a pedalar, viciada de novo em endorfina, a sentir-se gostosa, a usar roupa colada, até aprendeu a se masturbar sem se sentir culpada depois, “ai, ai, bom demais!”, em busca de oscilações de prazer, “não quero mais me submeter à disciplina militar do ser constante”, quer conversar com as amigas mas esbarra no decoro das mães de família, “como pude me tornar tão politicamente correta?”, o cotidiano enquanto clínica ginecológica dos princípios, portanto, o segundo amante, um gigante, um Atlas, músculos de estátua grega, arquétipo que lubrifica certas mulheres entre as pernas, “me ajuda a treinar?”, “é claro!”, o ser humano é hilário, o ato de suar a dois cria uma estranha cumplicidade entre as pessoas, dois meses depois do início do treinamento, eles se beijam no meio da rua, sob a iluminação do letreiro de uma loja de eletrodomésticos, “quer ir lá para casa?”, “você mora sozinho?”, “com a minha mãe, mas a essa hora ela está vendo todas as novelas possíveis para compensar a desistência de novas idéias”, os dois riem, a princípio, Lolo parecia um clichezão de jovem esportista, mas logo demonstrou inteligência, senso de humor e bom gosto, pouco a pouco, desabou o estereótipo, bom demais mergulhar nas profundezas da intimidade alheia, bom demais depois do enrijecimento do dia-a-dia resgatar a sensação de namoradinhos juvenis, “vamos, eu também quero”, Alice Holanda devora o atleta, ele fala sacanagens no ouvido dela, faz com que se sinta suja, divertidamente suja, sem mistificações, inteiramente em plano terreno, ela, em busca de paixões tão intensas que a pornografia se envergonha, “mete, seu safado, mete”, ele se exibe, banca o equilibrista de espetáculo circense para impressioná-la, mas a alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo!, “me engravida”, o equilibrista despenca através do ar, “o quê?”, o homem-bala dispara contra a lei da gravidade, ou da gravidez?, de repente, o gozo vem fora, morno na pele dela, o equilibrista cai na rede de segurança, “por que você tirou?”, “ficou maluca? Eu não quero filho, não!”, “idiota, agora preciso me lavar para que o meu marido não descubra”, “marido?”, “sim, menino, está com medinho?”, “você tem marido e quer ficar grávida de outro? Está louca?”, “o filho é meu, o pai não interessa mais”, “que absurdo!”, “será?”, “é melhor você ir embora!”, ela se enfurece, “você não se cansa de pensar sempre as mesmas coisas?”, “que papo é esse? Não somos nada um do outro. Vamos nos comportar como se nada tivesse acontecido, ok?”, quanta decepção Alice Holanda guarda em seu íntimo pelos homens, “meninos, meninos, sempre tão meninos!”, veja, Wendy, é o Capitão Gancho, ho, ho, ho, hi, hi, hi, ha, ha, ha.

Continua...

6 comentários:

Rafa disse...

Enquanto a parte 4 não chega, essa semana tem um trecho a mais do romance O pervertido, só acessar acima, no domingo que vem, a minha parte favorita de Meu bebê, até breve.

Guilherme disse...

É isso ai!

diana disse...

Meninos, meninos ... sempre os meninos.

Tiago Pereira disse...

Perto de uma mulher... são sóóó... garotos!

Alice disse...

concordo com o tiago, hahahaha, perto de uma mulher, são só garotos, nossa, a sua Alice é muuuito corajosa.

Camila disse...

... “o ato de suar a dois cria uma estranha cumplicidade entre as pessoas”... MARAVILHOSO!!!
Viciada em endorfina que sou hoje e vivendo intensamente, penso: como pude ter sido tão politicamente correta?