Parte 2 do conto Meu bebê

De Rafa Lima

No capítulo anterior

... Além disso, você teve uma gravidez perigosa. Sei que está ansiosa em ter mais um filho. Mas não será melhor agora irmos com calma nesse assunto e nos concentrarmos na Clarissa?”, mais uma resposta negativa do marido!, mofoder, “está bem”, Alice Holanda finge aquiescer enquanto pensa: “Até parece! Cuida você dela e daquelas olheiras profundas!”.

Continua...

Parte 2

Agir, “amargurada pessoa de bem, fortaleza moral cheia de infiltrações causadas por tudo aquilo que teve de batalhar, negociar, abrir mão para se tornar quem é hoje, amargurada pessoa de bem”, “nem todas, minha amiga, nem todas são assim”, “medo, falta, perda, algo mais? Algo novo!”, agir, preparem as suas fogueiras!, ela é uma bruxa!, não há mais como esconder de que Alice Holanda quer fazer isso, sim, sim, sim, cuidado com ela!, muito cuidado com ela!, depois de tanto tempo encontra um novo eleito, a escolha se baseia em atração física combinada com a idealização que ela faz do rapaz através das revistas e livros que ele lê à mesa do café literário mais as roupas que ele veste, ela adora camisetas listradas!, códigos e mais códigos que não passam despercebidos aos olhos dela, sempre à hora do almoço, as duas solitudes ali se esbarram sem estardalhaço, observou-o em silêncio durante dias, descobriu uma rotina nos passos dele, até o seguiu pelas ruas, “caramba, sempre sozinho!”, planejou tudo, para a fogueira com ela!, tantas elucubrações insones que quase despertaram o marido empanturrado, paixonite, paixonite, o lugar ideal!, agora, difícil é a aproximação, que baita cara-de-pau, mas que fique claro que é ela quem manda, portanto, apenas lança o desafio, “olá”, “oi”, com sorriso, “ele é uma graça!”, ela pensa de perto, “em um dos próximos dez dias, vou voltar aqui. Nunca fiz isso. Nunca pensei que pudesse ser correto. Mas agora eu quero! Se você estiver aqui a essa hora da próxima vez em que eu entrar nessa cafeteria, vou com você ao lugar que escolher. Está a fim?”, ele, olhos arregalados, boca seca, sensação de armadilha, “é claro!”, novo sorriso, ela bate as asas, fadinha fodinha, e voa para longe, “homens, mesmo os mais inteligentes ou os mais bonitos, são tão previsíveis na dependência do desejo”, no sétimo dia, Alice reaparece, queimem-na!, queimem-na!, “vamos embora rápido!”, Leonardo, nada bobo, obedece, “casada?”, “isso importa?”, “nem um pouco”, ele desconfia, mas se submete, um motel à tarde em dia de semana, enquanto a massa trabalhadora se empenha em ganhar a sobrevivência, gerando lucro a uma microminoria que pode se dar ao luxo de freqüentar motéis à tarde em dias de semana, enquanto a massa trabalhadora lentamente se fode! Pelo menos assim se parece aos olhos de Alice Holanda. Depois de usufruir do amante-oásis, simulacro de liberdade, ela mesma!, “delícia, me morde, lindo, me beija”, quantos carinhos, o marido se torna tão enfadonho!, “chato, Juninho, chato!”, “o que eu fiz?”, “é exatamente o que você não fez”, “você, às vezes, é tão injusta comigo”, “sou?”, ela sabe que é!, mas não assume, “para quê? Para ele se achar mais perfeito ainda?”, reprime a sinceridade e devolve a raiva que sente causada pela constante falta de interesse a que o marido sequer se dá ao trabalho de esconder, mofoder, “aonde foram parar os bons tempos quando a gente se amava muito, mas muito, mas muito mesmo, da maneira mais simples de todas?”, ele se cala, internaliza como sempre, a filha começa a chorar de novo, só atrapalha, “deixa que eu vou”, surpreende a esposa, Clarissa de olheiras profundas causa vertigens à mãe, o bebêmenina a ofende mais e mais a cada dia que passa!, após novos encontros clandestinos com o amante, Alice goza, goza, goza, “por que gozar tanto assim? Deve estar desregulada”, “ah, você é sempre tão irônico!”, riem juntos, Alice, não mais apenas Alice Holanda, Alice!, Alice com gosto de Alice, viva, serelepe, colore um arco-íris interior, sorri para o céu, sorri para a chuva, sorri para o mendigo, quanta euforia!, quanta euforia!, quanta euforia!, gozar e sorrir, nada realmente importa!, “tão bom viver desse jeito”, mas, tempo, tubarão, mordida que não se vê até que dilacera, três meses, nada de gravidez, percebe-se apaixonada para valer, dependente, “é a hora de partir, não quero!, não quero! Mas tem de ser assim”, rapidim, esforça-se, tratamento de choque, “arranca, arranca, tira isso de mim!”, chora em segredo e desaparece da vida dele sem deixar vestígio, decepa-o de dentro de si antes que tudo esteja perdido, bruxa?

Continua...

15 comentários:

Rafael disse...

Paixonite, paixonite, o lugar ideal!, no próximo domingo, vem a parte 3 de Meu bebê, Alice Holanda redescobre o próprio corpo, não percam.

Rebecca Berbat disse...

VOTO: Chances para Clarissa!! Ela só precisa disso para conquistar o lado feminino de Alice, pqo masculino com certeza aquelas belas olheiras já conquistaram!!!

Muitas saudades!

Bjs,

Rebecca

Guilherme disse...

E o homem... Sempre culpado... É isso ai! Abs.

Alice disse...

Nossa, Rafa, penso que às vezes queria ter a coragem da sua Alice, ela não é bruxa, só não consegue se encontrar numa sociedade certinha demais, o marido dela não tem culpa, eu acho, beijo, espero domingo a continuação.

Manuela disse...

seu blog é muito engraçado, rafa, parabéns!! choro com seus escritos... beijos, Manu.

Diana Gondim disse...

huuuuuuuummmmm adorei!! mandou bem repetindo a última parte antes de prosseguir, esse é meu garoto! quero continuação já!!

beijocas gato!

Ingrid disse...

você criou um previously, hahaha, adoro a sua linguagem, Rafael, embora ache que a tal da Alice é uma louca desvairada... o texto é ótimo, adorei a frase "paixonite, paixonite, o lugar ideal!", beijos.

Mariana Jannuzzi disse...

Fiquei pensando em Alice e de como ela achou o método mais fácil: revenge sex, mas as mulheres, rafa, são tão bobas e vingativas que se apaixonam pelas suas vingacinhas... é algo que devíamos aprender, a vingança pros homens é fria, pra nós, sempre quente, mas acho que isso vc já sabe.
Alice está girando, ela é espiral, talvez um pouco como a Nanda do último post do casa de espelhos. ah... Alice ainda cagará o pau tantas vezes... estou errada? mas ela é infiel. com quem? o pior infiel é aquele que não se segue, aguardo.

Beijos.

diana damasceno disse...

Estou me incluindo na fila de espera. Afinal, por que o bebê tem tantas olheiras? Por causa do egofamiliar?

Thalia disse...

pq bruxa?

Anônimo disse...

camisas listradas...café literário...amante pseudo!?
Pouca vergonha, isso sim!

E a família, os valores? Pra onde vamos?

É esse tipo de literatura depravada que corrompe a juventude do caminho reto do trabalho e da família...desconfio que o autor seja um Groucho-Marxista, alguem interessado na anaquia e no caos. Provavelmente eleitor do Senhor Gabeira-sunguinha vermelha, militante da promiscuidade, frequentador do Ithay, aquele antro de indecência e ardil concupiscente.

Pena que meu e-mail foi infestado com conteúdo verdadeiramente porno-literário, manchado meu dia de trabalho.
Nas palavras da Blíblia:

"Ai..." Jó, vesiculo 13, salmo 69

Rafael disse...

ho, ho, ho, hi, hi, hi, ha, ha, ha, só melhora!, se a infidelidade de Alice Holanda merece fogueira fica a critério de cada um, bruxa?, now she´s getting physical, tottaly naughty, domingo hot, hot, hot!

Anonimus às claras, o anti-cruzadas disse...

Não faço parte desse blog, mas já tem gente me identificando como o senhor Anônimo acima.

diana disse...

Entre bruxa e Jó, sobra a literatura. Ou não?

Camila disse...

prefiro ver o lado hedonista da Alice... fadinha fodinha, serelepe, arco-iris interior, transar transar transar. A vida parece cinza até que ela começa a ouvir vozes lá de dentro que dizem, dá pra ser feliz, vai em frente~do jeito que você achar melhor. Só acho que o equilíbrio é o mais complicado, não ferir o outro, não ferir a si mesmo, tem como?