Parte 1 do conto Meu bebê

De Rafa Lima

O quebra-cabeças da vida de Alice Holanda parece montado!, pronto-pronto como sempre se imaginou, de madrugada, enquanto o bem sucedido, boa gente, carinhoso, um pouco mais alcoólatra e barrigudo do que quando se conheceram e supostamente fiel marido dorme de pança cheia, oh, que maridão Alice Holanda encontrou para si, macho alfa dominador clássico, um homem que sabe se impor e ainda um experiente jogador de pôquer, ela pensa nas escolhas que o movimento natural da existência tomou por ela, casamento, emprego bem remunerado, acesso livre aos bens de consumo, à vida social, às pessoas e aos seus clubinhos existenciais particulares, contas e mais contas, o tédio, os sapos engolidos nos conflitos diários ou enfiados rabo adentro sem gel, a perda parcial e silenciosa do desejo sexual pelo homem amado, os amigos de sempre, os eventos de sempre, as novelas, os seriados e as comédias românticas de sempre, os sempres de sempre! E mais agora! Ela! Há dois anos, Alice Holanda deu à luz Clarissa, a primeira filha do casal, mas Alice Holanda, embora disfarce diante do marido, não esconde de si mesma a frustração que sente, não queria uma menina!, que idéia ridícula!, nunca quis, “as mulheres são muito falsas, dissimuladas e dependentes”, há tempos Alice Holanda imaginara que seria mãe de um rapagão bem apessoado, modelo de saúde, que se tornaria médico, advogado, economista, empresário ou jornalista, ou de um atleta olímpico que serviria de exemplo para a criançada, ou de um escritor sensível embora crápula que usaria o próprio talento com as palavras para seduzir centenas de mulheres, ou de um astrofísico renomado que ganharia o Prêmio Nobel, não importavam mais as antecipações que fizera contanto que fosse mãe de um menino!, “um menino, entendeu bem?”, rói-se em seu diálogo interior imaginário com o Criador da Luz, do Caos e dos espaços in-between (entre-espaços) onde se encontram os intelectuais, os roqueiros ou as drag queens, “além do mais, essa menina é muito estranha! Eu nunca tinha visto um bebê com olheiras desse tamanho!”. Alice Holanda imagina as olheiras como o símbolo de uma vida cheia de profundas questões, amores, reviravoltas, escolhas, vitórias redentoras, derrotas dilacerantes, mas vivas e pulsantes ao extremo. Sob a ótica da genitora, as olheiras do bebêmenina representam a promessa de uma existência plena movida pela rebeldia de uma pessoa preenchida pela impressão de vontade própria (por mais ilusória que possa parecer). Em silêncio, desde já, Alice holanda inveja a filha, porque desconfia de que um futuro grandioso aguarde Clarissa, muito mais interessante, intenso e livre do que o cotidiano em que a mãe se encontra acorrentada, cravado!, decide-se, ao ataque, pé-de-cabra emocional em mãos para arrombar a barreira da estagnação, “ei, Juninho, acorda!”, “o que houve, Alice? Aconteceu alguma coisa?”, “nada demais. Só quero pedir algo para você!”, “ah, Alice! Está de brincadeira? Eu estava dormindo. Trabalho amanhã cedo. Até parece que você não sabe disso. A Clarissa já está dando o maior cansaço. Agora, você também?”, “pára de drama, Juninho! Quero pedir algo bom! Muito bom!”, “é mesmo? O quê?”, “me come de um jeito que você nunca comeu antes!”, “hein?”, “me come de um jeito que você nunca comeu antes e faz um filho em mim!”, o homem acostumado a mandar se espanta, treme, corre dali, sim, sim, sim, corre dali para não arrancar os cabelos que ainda não caíram, quando percebe a grandeza da fêmea que silenciosamente o domina, “o que deu em você, Alice?”, “estou buscando novas formas de reconquistar a alegria de viver”, “mais do que já temos?”, “mais!”, “mais?”, “mais! Estou falando de novas motivações, Juninho!”, “desculpe, amor! Estou quebrado e o meu estômago está me matando. Além disso, você teve uma gravidez perigosa. Sei que está ansiosa em ter mais um filho. Mas não será melhor agora irmos com calma nesse assunto e nos concentrarmos na Clarissa?”, mais uma resposta negativa do marido!, mofoder, “está bem”, Alice Holanda finge aquiescer enquanto pensa: “Até parece! Cuida você dela e daquelas olheiras profundas!”.

Continua...

8 comentários:

Rafael disse...

Casamento, gravidez, infidelidade, amantes, a falta de tudo o que não se conquistou e não se sabe bem o que é, dessa vez sob a ótica feminina, sentimental mas não menos ácida, polêmica, vejam só, acompanhem e opinem como sempre, sem arrependimentos, todo domingo, voltem em breve para a parte 2, beijos, Rafa

Tiago Pereira disse...

Acidez que corrói "ur istrôumbu tudu, mano"! Como sempre, Rafa, meu querido George Clooney que mais parece Chico Buarque, vc foi tocado (já tem 40 anos? Cuidado... vai chegar!)na alma por uma mistura doida e instável de Nelson Rodrigues, Ruben Fonseca e Otto. Como sempre, bem tocado (?)! E, como sempre, excelente!

Abs!

diana disse...

Concordo com o Tiago. Mas esse bebê também tem um toque de Polansky.

Alice disse...

Nossa, adorei a sua Alice, que doida! Daqui pra onde? Mais, bonito, mais! Beijos, Alice.

Guilherme disse...

é isso ai!

Mariana Jannuzzi disse...

tomara que clarissa seja tudo o que a mãe não foi! ou tomara que alice ainda corra atrás de tudo o que poderia ser...
pq o bebemenina não pode ser modelo de beleza e saúde, economista, médica, advogada? alice, merece ainda noites em claro como essas...
lendo agora, eu acho que seus textos lembram um pouco os diálogos do novo curinga, viu o filme novo? no final sempre acho que o narrador diria "why so serious?".
beijos.
aguardo a parte II e, em breve, começo o pervertido.

Ingrid disse...

Quer dizer que a Alice vai ter amantes? Caramba, só quero ver o que você vai aprontar, Rafa, gostei da idéia de dividir o conto em várias partes e atualizá-lo toda semana, de bom tamanho e ainda cria um suspense, beijo, Ingrid

Camila disse...

Finalmente tomei vergonha e consegui dar as caras no blog de um dos homens mais amados da minha vida. Desculpe a irmã dumbworkaholic. Queria me dedicar à leitura do blog da forma como ele e você merecem, meu escritor fodão preferido.
Vamos ao conto...
É com grande admiração que leio uma verdade tão nua e crua de maluquices do imaginário feminino que vem e vão, mas que não somos capazes de assumir. Eu, quando engravidar certamente terei pensamentos bizarros e cruéis (com muita doçura, pois mães são boazinhas ai ai ai) ao ter que abrir mão de momentos de extremo prazer do meu dia como a hora de dormir. A criança chora, o pai caga e se não for comigo não será com ninguém... nesse momento acredito que o que deve vir à cabeça nem deva ser "gostaria tanto te ter um menino!", mas, "que merda que eu fui fazer", será que realmente eu preciso passar por isso? As aspirações relativas ao futuro da criança, para mim, vão ser assunto pra depois que começar a mandar em mim e me fazer chorar de emoção com um simples peidinho diferente! Tomara que o pai do meu filho não negue fogo e ajude, mesmo que pouco, no revezamento noturno.