Parte 1 de 3 do conto O prêmio

De Rafa Lima

Como se disfarça o mau-humor sobre o tapete vermelho de premiação cinematográfica? Estado de espírito cinzento que não se modifica em Heleno Fontenelle pelo fato de estar indicado na categoria de melhor diretor do ano. Ele acelera o passo. Sente-se patético vestido sob o elegante traje de pingüim. “Heleno!”, “uma palavrinha, por favor!”, “Heleno, estamos ao vivo!”, “Fale comigo, Heleno!”, confrontam-se as vozes dos repórteres localizados atrás da grade que os separa dos artistas que chegam à cerimônia e à frente da outra barreira de metal que os mantém destacados do grande público. Microfones e flashes em pronta ereção. Heleno se esforça para tratá-los com gentileza, aproximando-se com um meio-sorriso. As mesmas perguntas de sempre permitem respostas óbvias. “Nervosismo nenhum”, “sim, estou muito feliz com a reação da crítica ao filme. Só esperava mais do público”, “não considero o filme tão polêmico assim”, “não vou falar sobre o fim do meu casamento”, “boa festa para todos”. Apressado, Heleno se afasta. Detesta entrevistas. É tomado pela vontade de beber algo forte.
Dentro do auditório, avista muitos pingüins, que como ele escondem o desconforto, pavões coloridos e peruas emplumadas. “Eventos de gala são tão charmosos quanto dentes de ouro”. Logo, Heleno se vê cercado de gente meiodesconhecida, fulaninho, “está nervoso?”, sicraninho, “o filme é espetacular, Heleno. É espetacular!”, não-sei-quem, “quanta elegância, meu querido. Você é tão jovial”, não-me-lembro-o-nome, “o meu lugar é perto do seu”, quem-diabos-é-você, meu filho?, “noto no seu filme a mistura de influências da estética neo-realista italiana da segunda metade do século 20 com a acidez juvenil do Tarantino”, a-delicinha-da-noite, “o meu nome é Fernanda. Que prazer imenso conhecê-lo. Adorei o filme”. Heleno sorri com intenção pela primeira vez desde que chegou. Caminha até a poltrona onde em breve terá início a sessão de tortura chinesa. “Somos tão talentosos e felizes”, rosna para si. “Por que me defendo tanto dessa gente?”. Heleno ainda não percebeu a presença dela. Nos últimos tempos, em todos os lugares em que enquadra o seu olhar de múltiplas obsessões apenas reconhece a busca por títulos de nobreza social, seja por via econômica, intelectual, política, artística, esportiva, etílica, “ah, nada como uma pessoa que sabe beber direito”, e principalmente erótica ou sentimental. A poltrona de Heleno se encontra na quinta fileira, onde o diretor avista o produtor do filme, Olívio Quitanda, um sujeito gordo, grisalho, cínico, engraçado, merecedor de profunda adjetivação.

“Nervoso, rapaz?”.
“Até você, Olívio?”.
“Não está nervoso?”.
“Deveria estar?”.
“Já viu Ella com o roqueiro?”.

Heleno congela. O silêncio do diretor é a melhor resposta. “Porra, espero não ter que encontrá-la”. Senta-se ao lado do outro. Em silêncio. “Certo! Certo! Tão certo quanto um idiota que toca violão valer mais no imaginário feminino do que um idiota qualquer, mesmo que ele cante como um demônio em agonia”.

“Não a viu ainda, não é mesmo?”.

“Nem quero”.

Heleno baixa o olhar até os próprios joelhos. “Fazer arte! No princípio, era para tentar conquistar mulheres, às vezes funcionava, depois, por uma necessidade de expressar aquilo que não se sabe dizer no cotidiano, ainda mais além, para oferecer versões bem recicladas de velhas visões do ser humano, hoje em dia, por pura vaidade e satisfação do ego. Quanta ostentação para disfarçar a falta de talento!”.

“Essa porcaria não começa?”.


Continua...

O sentimento não pode parar!


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4 comentários:

Alice disse...

Contos e Pessoinhas de volta depois da digressão da peça, muito bom, Rafael.

Ingrid disse...

Os seus textos são fora de série, rapaz! Keep moonwalking! Beijão!

Mari disse...

gente blasée em premières... será esse o fim eterno da minha classe profissinal? ahahahha

Fashion disse...

Keep moonwalking!! Adorei hahahaha
Rafa, muuittto bomm!! Quero maisss