A descoberta da jovem escritora (wannabe a classic) - Parte 1

De Rafa Lima

“Era um grito de dor e raiva que eu queria devolver ao mundo, mas reprimi, condensei em minhas entranhas, cozinhei em fogo baixo e, antes que virasse doença, transformei em arte minha, de volta ao mundo como inspiração de vida o lamento de morte, porque enquanto eu puder criar, não existe moléstia, enquanto eu quiser ir além, a perda me afeta, me abate, sem me impedir de ir bem adiante! O vazio me locomotiva”.
Rufus Lemon
O inferno
A chave gira apenas uma vez na fechadura da porta do apartamento, aberta, alerta, Vicky Pierrot, habituada a dar sempre duas voltas, “só para garantir”, estranha, desconfia, move-se com lentidão quando a escuridão no interior do imóvel lhe toma a visão, entra, ouve o som da chuva que do outro lado da vidraça da janela renova o espírito de obviedade do cotidiano, a cidade em crise de repetição, a jovem escritora pressente algo incomum, um arrepio lhe atravessa as costas, “o que está acontecendo aqui?”, pressiona o interruptor, a luz da sala não se acende, “droga!”, caminha até a cozinha, nada feito, “sem luz, só me faltava essa”, pensa no ex-namorado, “cadê a mulher independente?, agora quer a minha ajuda?, como é prático para as mulheres ser machistas quando convém”, ela concorda, auto-ironiza-se, até que se deixa tocar pelo ressentimento, “ainda bem que você não está aqui, seu sabetudo, metidão, tenho nojo de você”, treme, jamais desejaria sentir tamanha imundície sobre uma história de plenitude a dois, “que se dane!”, ascensão e queda, vai até o primeiro quarto, negativo, no segundo o mesmo quadro de ausência de luz, abre uma gaveta, pega a lanterna, “meu anjo da guarda tecnológico”, e espia pela janela agora mal refletida em cuja vidraça se cria uma imagem loira borrada entre as pequeninas linhas líquidas que escorrem, apostam corrida entre elas para atingir o fim, parecem jorrar de Vicky Pierrot, “que bonita fico quando me faço chuva”, os prédios em frente se encontram apagados, a altitude não ameaça hoje, de repente, a quilômetros, a explosão no topo de um edifício babélico micro-ilumina o blecaute do mundo, amarelo, fogo, fúria, trevas da clareza, aos olhos de Vicky Pierrot parece uma cena de guerra, “minha nossa!, de onde tirei isso?”, desperta, o prédio está intacto, maldita imaginação, ilusionista dos sentidos, prestidigitadora da vontade, tão lunática quanto é neurótica a impressão de realidade, sente o coração se acelerar, senta-se em meio à escuridão à beira da cama, quase cai, mas já conhece a lógica do declínio, sustenta-se mais uma vez, perdida, perdida, perdida, o caminho inicial de todo escritor é a perdição, o escritor é esquecido antes de ser conhecido, como uma vida de trás para a frente cuja morte significa eternidade, o acordo se faz com o tempo (você quer ou não?), então, luz!, “aêêêêê!”, Vicky Pierrot se anima, num instante, acendem-se as lâmpadas dos quartos, da cozinha e da sala, desliga a lanterna e sente saudade dela, de ser a condutora da iluminação, “hum, que fome!, estou há muito tempo sem comer, preciso parar de agir assim”, ela se levanta, anda, “que boba!, fiquei alegre do nada”, retorna ao cômodo central do apartamento, de repente, não-ar!, a visão, sensação de tonteira, pernas bambas, o grito fica entalado, “quem?”, medo, queda da pressão arterial, luta, vai desmaiar, um homem, um invasor, “mas como?”, um homem todo de preto com corte de cabelo moicano sentado imóvel na poltrona, vai desmaiar, vai desmaiar, o chão a abraça com a rigidez do carinho paterno, a dor nunca foi um privilégio, não haveria de ser agora, o ângulo do olhar se inclina, a escuridão de novo, agora vinda de dentro.

Continua...


... Enquanto isso em Pessoinhas
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8 comentários:

Bernardo disse...

Dúbio é O CARA!!!

Sem mais! Hahahahaha!

RÔ disse...

Viu??? Depois dizem que a escuridão é ruim! Quantas coisas se desenrolam nela. Mas como o próprio narrador passa, a pior escuridão é aquela que vem de dentro. O dentro, as vezes, é a única esfera de possibilidades para encontrar respostas. A psicanálise não cansa de dizer que as respostas estão dentro de nós? Nem sempre... Quando há escuridão no espaço que luta pela sobrevivencia de forma natural, instantânea e instintiva, FUDEU!!!!

Diana Gondim disse...

"...enquanto eu puder criar, não existe moléstia, enquanto eu quiser ir além, a perda me afeta, me abate, sem me impedir de ir bem adiante! O vazio me locomotiva"

"quase cai, mas já conhece a lógica do declínio"

“que boba!, fiquei alegre do nada”

Começou bem, hein!! Tirei algumas pérolas que gostei =)

Final tenso! Pessoinhas irado! Manda mais!

Thalia disse...

gostei do: “que bonita fico quando me faço chuva”, bem clarice...

Alice disse...

como vc consegue criar personagens femininas tão marcantes?
a tirinha é hilária, o desenho é tosco mas genial, valeu, adoro seu blog, mesmo sem conhecer vc. Parabéns!

diana damasceno disse...

Que mais se poderia esperar de uma personagem chamada Vicky Pierrot? Bastante Woody Allen, não?
Essas pessoinhas são pessoonas.

Aleluia disse...

olá rafa!!!!
recebi,enviado pela Diana,o seu Blog.Zapiei bastante.Adorei algumas coisas,onde me vi.Criticaria outras,insatisfeito com final.Queria mais.
O resultado final é muito bom rapaz!!!sempre te imaginei um intelectual.Agora é preciso reunir e publicar.PARABÉNS!
Fica uma sugestão:
todo esse recurso vocabular pode ser usado tbém na crítica diária.com personagens que vc encontra por aí,tendo como janela,os governos,nosso ácido.
sucesso meu garoto.e minhas saudades aqui registradas.beijo na mãe.
aleluia

Re disse...

Adorei Rafa!

Esse final ficou super instigante.

E a tirinha super engraçada, só vc mesmo. hahaha

Parabéns!

Bjs

Renatinha.