Parte 5 do conto Meu bebê

De Rafa Lima

No capítulo anterior

... lembra-se e amaldiçoa o efeito das palavras de Tchuco, o vocalista carismático, quase messiânico, do maior fenômeno fonográfico dos últimos anos, a banda Sêmen THC, na última entrevista que o ídolo da juventude concedeu antes de desaparecer, “a maioria das mulheres que conheço não se libertou da opressão social com que foi educada e por essa razão ainda utiliza o sexo como substituto à tristeza”, assim uma explosão de novidade foi ouvida dentro da então esposinha resignada (quantas mudanças!), mas afinal de contas o que astros do Rock sabem sobre a vida?, no caso de Alice Holanda, o bastante.

Continua...

Parte 5

O marido ri com a televisão, sempre assim, chega do emprego, vai ver a menina e depois se entope de comida na companhia dos programas mais imbecis de nossa era (não falem mal da TV, ok?, ou vai rolar carnificina), “querida, também tenho o direito de me divertir de vez em quando”, como é possível sentir tamanha sensação de indiferença pelo ser anteriormente mais-amado-de-todos?, agora, quase nem amado, mais hábito do que amor, “um idiota de terno e gravata não deixa de ser um idiota. Apenas torna cúmplices de sua idiotia aqueles que dão credibilidade ao que ele parece”, Alice Holanda, fúria em silêncio, a gravidez não veio novamente, prestes a implodir, já não se atreve a voltar ao amante galáxico, se os dois ainda juntos ele ironizaria com voz robótica, “my mind is going, Dave... my mind is going...”, ela ficaria exultante por reconhecer a referência do século passado recém adquirida, de repente, tão mais inteligente!, “me amarrei nesse tal de Kubrick por sua causa”, ela riria sem culpa, mas de que adianta?, a gargalhada de Juninho a resgata da lembrança do passeio além de Saturno, Alice Holanda não se dá conta de que se afasta do marido por invejar a relação ultracarinhosa entre ele e a filha, ele canta para a menina, dorme com ela sobre o tórax para despertar babado, dá banho, nada com ela peladinha na piscina, “lindinha demais, você precisava ver, querida, a Clarissa adorou a água”, troca as fraldas, prepara a mamadeira, calcula a temperatura da comidinha para que a princesinha não se queime, sempre que pode dispensa as babás, repete palavras e mais palavras para que a belezoca se acostume logo com a linguagem, “mamãe”, “papai”, “Cla-ri-ssa”, “Cla-ri-ssa”, “Clarissa”, “leão”, “papinha”, “São Paulo”, “São Pau-lo”, “tricolor”, “amizade”, “coragem”, “mamãe”, “papai”, “teoria econômica”, ele ri baixinho sem a atenção da esposa, “oh, tricolor, ô, ô, ô, ô”, empolga-se, “clube bem amado!”, “pára com isso, Juninho!”, “não se irrite, fofinha”, ela se irrita, “fofinha?”, não tem jeito, não se controla o descrédito, ela quer fugir dali, por que as decisões da vida são tão categóricas?, “raramente, passam por nosso direito de escolha”, tem certeza?, que sacanagem, parece ironia mas Clarissa só golfa o alimento sobre a mãe, mamãe-vômito, mamãe-baldinho, provocação?, mas como é possível?, a menina não tem consciência ainda, ou atos não precisam de consciência, são escolhas primitivas?, “estou ficando doida nessa casa”, reprime o grito, “vou sair, Juninho”, “a essa hora? Vai começar o jornal”, “preciso de ar”, “aonde vai?”, “só tomar um ar, não me espere acordado”, “vai demorar?”, “não sei”, “o que está acontecendo, querida?”, “nada”, “nada?”, “nada”, nada está acontecendo como sempre, o marido baixa os olhos, escolhe as palavras, prepara-se para o que vier, vai, vai, vai, “você tem outro?”, Alice Holanda se espanta, hesita, “não tenho mais ninguém, nem a mim mesma”, Juninho concorda, Clarissa abre o berreiro, marido e mulher trocam olhares como se não existisse o resto do mundo, há quanto tempo!, momento perecível de eternidade, silêncio-nostalgia, ela se embaraça, ruboriza-se, corta a conexão, ele aceita a condição, “bom passeio, querida”, mas bem que poderia ser “ainda amo você, menina” ou “vê se não enche a porra do saco!”, múltipla escolha.

Continua na penúltima parte...

6 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Thalia disse...

sao paulino?

Anônimo disse...

vamos, São Paulo, vamos, São Paulo, vamos passar batom!

Alice disse...

“my mind is going, Dave... my mind is going...”, ah, que belo, HAL 9000, 2001 - Uma odisséia no espaço;
Rafael, os seus finais são sempre inapeláveis, adoro!

Camila disse...

Fúria em silêncio... quantas vezes passei por momentos como esse e enlouqueci completamente por dentro, mas por fora meu corpo não deu sinais por causa da laranja mecânica que existe em mim. Acho que hoje tem sido bem diferente, às vezes até um pouco "over" de tanta energia que vem de dentro. Uma vontade de nunca mais ser o que nao sou só porque... "é correto ser assim minha filha!" Bem-vinda maturidade precoce, que venha sempre bater à minha porta.